quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Momento II

Como tu acaricias a minha pele,
alma... Como beijas o meu corpo,
alma... Sinto-me até sufocada
tamanha é a plenitude que me causas.

E teu beijo conhece os meus mais
íntimos anseios, e compreende
as mais profundas ambiguidades
do meu ser... Morro.

E nos meus próprios devaneios
tu me persegues com teu
sentimento aflorado e tua
mania de infinito contra a minha pele... Mania.

sábado, 26 de dezembro de 2009

trecho...

- E você, Sara, não vai dizer nada? – dissera, sorrindo.
Sua voz soava tão macia que acariciava os ouvidos de Sara. Seus olhos perturbadores a fitavam. Ela sentira falta disso. Principalmente daquele sorriso. Aquela pergunta a desconcertara. Não soara grosseira, soara dócil. Talvez por isso.
- Ah... Nem sei o que dizer.
- A mesma de sempre – dissera, revirando os olhos.
- Mas... – começara – que bom que você apareceu. Também fiquei preocupada.
- Que bom. Já estava achando que o Ben tinha te arrastado para cá só para me convencer da existência de mais alguém no mundo que gosta de mim, além dele.
Sara sorrira timidamente.
- Queria mostrá-los uma coisa. Vamos ao meu quarto – dissera, começando a subir os degraus.
O quarto de Bernardo era completamente bagunçado. Havia uma pilha de papéis – em cima de uma escrivaninha – junta a diversas canetas e lápis. Do lado da mesma escrivaninha encontravam-se alguns CD’s amontoados. A cama estava parcialmente arrumada. O computador estava ligado.
- Desculpem-me pela bagunça. Não planejava receber alguém hoje – dissera, encaminhando-se para a pilha de papéis – Era isso que queria mostrar.
Bernardo suspendera o papel com as mãos, colocando-o no campo de visão dos outros dois.
- O que é isso? – perguntara Sara.
- É só uma coisa que estou tentando escrever. Um roteiro.
- Hmm... – dissera, pegando o papel das mãos dele.
Ben estava atrás dela, também passando os olhos pelas palavras escritas à mão por Bernardo.
- Acho que não está muito bom.
- Corta essa. Você sabe que escreve muito bem – dissera Ben, intolerante. – Preciso ir ao banheiro.
Sara continuara lendo. Na verdade, estava passando os olhos pela mesma frase, no topo da página, diversas vezes. Não conseguia se concentrar com o olhar de Bernardo pairando sobre ela.
- Senta aí – convidara, dirigindo-se a um sofá localizado abaixo da janela.
Sara sentara-se. Tinha conseguido ler mais algumas frases. Tirara sua própria conclusão.
- Está muito bom. Muito bom mesmo.
- Obrigado.
- Parece um filme promissor. Adoro drama.
Bernardo sorrira.
- Posso levar para casa para terminar de ler?
- Claro.
Um minuto se passara. Sara pensava se faria ou não uma pergunta.
- Por que você sumiu? – deixara escapar, não conseguindo disfarçar o pesar da voz.
Bernardo suspirara e respondera:
- É complicado. Na verdade, não tenho me sentido muito bem.
- O que tem sentido?
- Tédio de viver – sorrira melancolicamente. Depois apoiara os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos.
- Mas por quê? – Sara perguntava incrédula e, ao mesmo tempo, sentida.
- Porque sou assim. De vez em quando mais, de vez em quando menos. Sempre assim. – dissera, quase sussurrando. Recostara-se nas costas do sofá – A vida, às vezes, parece tão sem motivo, sem sentido.
- Eu também já passei por momentos difíceis. Pode parecer ridículo, mas quando meus pais se separaram há algumas semanas atrás, fiquei muito mal. Senti-me despedaçada. Parecia que uma parte de mim tinha ido embora e nunca mais voltaria. Mas já estou melhor – dissera, entrelaçando seus dedos nos dele – E você também vai ficar. A vida não é fácil e é tediosa, sim, às vezes. Mas a gente tem que encontrar algo que acabe com esse tédio, que faça a vida parecer valer a pena.
- É exatamente isso: fazer a vida valer a pena.
Sara nem acreditava que ela própria houvesse acabado de fazer aquele discurso. Mais surreal ainda era ter pego na mão dele. Sentia que o fantasma de sua timidez fora vencido pelo desejo incontrolável de fazê-lo sentir-se melhor.
Ouvira passos no corredor. Ben estava voltando. Levantara-se rapidamente.
- Acho que tenho que ir embora – dissera, apressadamente – Até outro dia – e saíra do quarto, descendo as escadas quase correndo.
Ao chegar na rua, sentira-se aliviada. Aliviada por ter conseguido agir daquela forma; aliviada por ter conseguido sair da casa; aliviada – mais do que tudo – por ter sentido aquela pele incrivelmente suave sob sua pele.

Texto extraído do meu "livro", "Confissões".
Acho que precisava de alguém pra fazer isso por mim. Acho que precisava de alguém por quem fazer isso.

Desejos

Queria dizer-te umas coisas,
entretanto tais coisas não direi...
Espera da minha boca saírem uns
suspiros, pois neles me dissolverei

e, quem sabe, a ausência da sílaba
pronunciada seja recompensada por
este ar ofegante que desde muito guardei.

Queria beijar-te com a ponta dos dedos e
com a boca umidecida, mas não o farei...
Espera meus olhos saírem a passear e
encontrarem os teus na penumbra

e, quem sabe, a renúncia declarada não
seja a oportunidade que faltava para
revelar-te estes versos em que me entreguei.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Súplica

Quando a noite se abre,
sinto o temível hálito
das profundezas da solidão,

e vejo sua face encarar-me
como um mago à espera de um
evento próximo: a corrosão.

Entretanto, não deixo-me levar
pelas asas do pensamento,
amigo íntimo da madrugada.

Se ao amanhecer encontrar meu
peito ferido, por favor, não
esqueças de cobrir-me com o manto
quente de tua simples alvorada.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Quimeras

Tenho um sonho e não
o conto para ninguém:
medo de ver a realidade
desmascarada e cheia de desdém.

Sonho meu, que sonho acordada ou
sonho dormindo: me faz apavorada
só de pensar em não te ver se abrindo
e reluzindo perante minh'alma.

Parece até que tenho uma rosa
cravada no peito: me fere
com teus espinhos e me acaricia
com tua pétala delicada.

Tenho pavor de perder-te ou
perder a mim nessa tua possível
estrada, porque um dia os sonhos
se vão, e a vida - esta - se acaba.